Razões para emigração dos alemães

Para entender o que motivou os emigrantes alemães a deixarem suas terras em busca de outros países, no início do século 19, é necessário conhecer o contexto político, econômico e social da Europa e da Alemanha em particular. O pesquisador Walter Zahn, da Sociedade da História da Cidade de Bacharah e dos Quatro Vales (Verein Für Die Geschichte Der Stadt Bacharach Und Der Viertäler E. V.), através do livro AUSWANDERER aus den Viertälern (IMIGRANTES dos Quatro Vales), publicou um estudo particularmente importante para a Família Dienstmann, pois analisou as motivações da emigração dos habitantes da região de Bacharach – cidade de origem da nossa família.

 

A ALEMANHA NO INÍCIO DO SÉCULO 19

Falar na Alemanha dos anos de 1800 requer registrar que ela não existia como unidade nacional (país). Havia reinados, principados e ducados, independentes entre si. O que identificava a todos, e daí falarmos em Alemanha, era a língua. Na Idade Média, predominavam os dialetos. Ainda hoje a Alemanha é rica em dialetos. Com Lutero, ao traduzir a Bíblia para que os alemães pudessem lê-la, criou-se a língua alemã ou simplesmente, o alemão. Ao uniformizar o idioma havia um elo comum entre todos os departamentos políticos vindos da Idade Média. Logo, ao falarmos em imigrantes da Alemanha, antes de 1871, ano da unificação formalizada por Bismark, referimo-nos às pessoas de fala alemã. Os passaportes da época registram a origem das pessoas como sendo da Prússia, de Schleswig-Holstein, Renânia, Hesse ou Pomerânia. Como todas falavam a mesma língua, a história só registra “alemães”.

 

Igualmente, é preciso considerar que no início da imigração os reinados, principados e ducados de língua alemã saíram das Guerras Napoleônicas (1792- 1815), que causara uma devastação fácil de imaginar: lavouras destruídas seguidamente, moradias em chamas, mortes, dizimação da juventude masculina e os “rastros” deixados pela soldadesca junto ao elemento feminino.

Quanto aos habitantes da Renânia, de onde saíram um grande número de imigrantes que vieram ao Brasil, suas terras sempre foram palco de lutas travadas ao longo do rio Reno, fato que pode explicar sua inquietação. Por outro lado, a emigração para o Brasil começou em 1824, setenta anos depois da invenção da máquina a vapor, na Inglaterra, cujos efeitos técnicos começavam a ter efeito na Europa continental, com a dispensa da mão-de-obra e o desemprego de milhares de pessoas.

 

Depois, veremos que os artesãos começaram a perder suas oportunidades na Alemanha, que foram muito importantes, porque lançaram as bases da industrialização. Além desses fatores gerais, em cada região de onde provieram imigrantes, com destaque para a Renânia, Vestfália e Pomerânia, havia fatores locais a influir na saída de seus filhos.

MOTIVOS DA EMIGRAÇÃO

Sobretudo a miséria obrigou, ao que parece, muitos a abandonar o país. Tem-se referência que em 1778 que cerca de 1/5 da população mendigava e que, pela emigração, o número de mulheres superava o de homens perigosamente.

 

Somente no contexto das guerras revolucionárias francesas a região dos Viertäler – dos Quatro Vales – foi envolvida novamente nas operações guerreiras. Na Paz de Campo Formio, de 1797, a margem esquerda do Reno foi entregue à França e a decisão foi confirmada em 1801 pela Paz de Lunéville. A Região dos Quatro Vales, que passou ao domínio francês, foi adaptada administrativamente às condições francesas.

 

Na Região dos Quatro Vales predominava o cultivo da uva. Outras fontes de renda ainda eram oferecidas pelos curtumes ali sediados, pelo exercício de um ofício e, mais tarde, o emprego na indústria madeireira que ali se instalava.

 

As áreas agrícolas serviam, na maioria dos casos, para prover o consumo próprio. O instituto da partilha igualitária dos bens entre os filhos, no caso de falecimento do proprietário, favoreceu a criação de muitas novas economias, levando a um crescimento populacional nas diversas localidades. Mas o fracionamento contínuo dos vinhedos, campos e pastagens fez com que uma propriedade não bastasse para o sustento de uma família.

 

Em consequência, um número crescente de homens se dedicava a outro ofício – exerciam outra profissão ao lado da atividade vinícola-agrícola nas épocas de trabalho menos intensivo. Isso levou, por sua vez, a rendimentos muito minguados ou escassez de trabalho  por causa da difícil situação econômica geral e da grande oferta de profissionais.

 

(Fonte: Tradução do livro AUSWANDERER aus den Viertälern. Pág. 5, parágrafo 3º)

 

Depois que, em 1815, a Região dos Quatro Vales foi anexada à Prússia, a vinicultura experimentou um enorme impulso, visto que a Prússia proibiu a importação de vinhos estrangeiros. Mas imediatamente depois da criação da sociedade alfandegária entre a Prússia e Hesse-Darmstadt, em 1828, a qual aderiram, mais tarde, outros territórios, desapareceu o monopólio vinícola do Reno médio. Seguiram-se dificuldades de comercialização e safras fracassadas, e a área de vinhedos reduziu-se pouco a pouco.

 

Já um ano após a inclusão da Região dos Quatro Vales na Província Renana da Prússia, a população sofreu um ano de escassez. Num diário doméstico de Steeger encontra-se a observação referente ao ano de 1816: “em abril ocorreram fortes nevadas. Depois longo período de chuva; o florescimento dos vinhedos se estendeu até agosto. Em setembro já ocorreram geadas e nevadas. As uvas ficaram nos pés até novembro.”

 

Na crônica da localidade de Oberdiebach, compilada pelo professor Kutscher, está citado o registro de uma crônica familiar da família Steihl, de Breitscheid: “Em 1816 não colhi nada porque tudo morreu de frio, pois este ano foi úmido e frio. As uvas amadureceram muito tarde. Também os cereais foram colhidos em época muito tardia. A maior parte da aveia foi colhida depois do Natal. Eu mesmo colhi a aveia somente depois do ano novo e estava ainda muito úmido. Mas nós a recolhemos, quaisquer que sejam as condições. A palha que ainda recolhemos, para nada mais serviu do que para compostagem. No que se refere a batata, ainda se colheu o suficiente nesta região. Em Ehrbach, Dichtelbach e Rheinböllen alguns gastaram mais em semente do que colheram. Havia um grande clamor por causa da falta de pão e de batatas. Que Deus jamais nos dê em nosso tempo de vida outro ano de maior carestia do que é e foi o deste ano, e que diga amém.”

 

Mas também o ano subsequente não foi muito melhor e as pessoas passavam fome.

 

Também os folhetos de propaganda a favor da ocupação de terras novas, convites à emigração, que pintavam a nova pátria em cores róseas, e notícias a respeito da descoberta de grandes jazidas auríferas forneciam assunto para conversa nas pequenas localidades, e para muitos que sonhavam com a sorte numa nova pátria com sua família, serviram de impulso para transformar o sonho em realidade.

 

Corresponsável pela disposição de emigrar, pela disposição de submeter-se às dificuldades de uma emigração, também eram os múltiplos impostos a serem pagos e que empobrecia os habitantes rurais inevitavelmente.

 

(Fonte: Tradução do livro AUSWANDERER aus den Viertälern. Pág. 6)

 

Já em 1822 se havia reconhecido a multiplicidade dos motivos e os elementos psicológicos que podiam levar a uma emigração. Assim, a Allgemeine Deutsche Real-Encyclopädie, editada por Brockhaus, em Leipzig, explicou a crescente onda de emigração não com pressão exclusivamente por superpopulação, nem com a “pulsão” dos seres humanos de “irem em busca de uma felicidade incerta”. Para ela, reinava uma expressa desesperança entre o povo no que diz respeito a uma melhora das condições de vida, acrescida por uma “falta de confiança na previdência dos governos”, e por um sentimento “de que já não há perspectiva de liberdade para o pobre, que a classe trabalhadora, a maioria da população, não trabalhava para si, e, sim, exclusivamente para as cortes, os exércitos e o Estado”.

 

Essa citação aponta uma mudança de mentalidade, resposta a um processo de conscientização no seio da população. Em consequência do desenvolvimento europeu – dissolução de antigas estruturas sociais, da Revolução Francesa e dos efeitos do iluminismo – muitas pessoas já não acreditavam mais em ajuda por parte dos proprietários das terras e de governos, e, sim, reconheceram, de modo crescente, os mecanismos de exploração. A esperança das pessoas as conduzia para longe da expectativa de uma vida melhor no futuro para uma melhoria ativa no presente.

 

(Fonte: Tradução do livro AUSWANDERER aus den Viertälern. Pág. 7, parágrafos 5 e 6)

 

 

POLÍTICA DE EMIGRAÇÃO NA ÉPOCA NAPOLEÔNICA

A entrada de tropas revolucionárias francesas no ano de 1794 também significou o fim dos muitos “mini estados”.

Somente depois de se acalmar a situação militar e também a situação política (ano 1801, Paz de Lunéville), pessoas do distrito de Simmern começaram a emigrar para a Prússia.

Também neste caso o motivo principal era a miséria econômica e a carga tributária era elevada.

Na questão da emigração, a França reagiu, como já o fizera anos antes o Palatinado eleitoral, com decretos e proibições. Não obstante, parece que a administração francesa assumiu uma atitude mais complacente para com as tendências emigratórias dos cidadãos, pois num ofício do governo do Palatinado eleitoral, de 10 de outubro de 1794, as comunidades eram instruídas no sentido de impedirem a venda de objetos e imóveis dos interessados em emigrar por meio do governo francês, e também de advertir a população, de que no caso de uma expulsão do inimigo, poderia ser feita novamente a exigência de reintegração de posse dos objetos vendidos.

As instâncias superiores de Bacharach foram instruídas a fazerem uso interno deste expediente.

 

A situação econômica da época não era boa. Isso se percebe em uma instrução do Departamento Reno-Mosela de 24 do floreal* do ano 3 da República (13 de maio de 1795), na qual as comunidades eram instruídas a permitirem novamente o cultivo das terras e vinhas abandonadas sob a ameaça de que, no caso de inobservância da instrução, o dízimo esperado da produção das terras ou outros lucros deveria ser pago pela própria comunidade.

 

As comunidades que obedeciam às instruções, receberiam, como indenização para os custos de cultivo, a metade da colheita, a outra metade deveria ser recolhida aos armazéns da República.

 

Uma lei publicada em 3 de março de 1800, que incluía também os departamentos ocupados, não continha mais nenhuma restrição à emigração. Por outro lado, se negava aos pretendentes à emigração o passaporte indispensável conforme o “Código da polícia administrativa”. O problema da emigração era o de menor importância nos poucos anos da ocupação francesa.

 

(Fonte: Tradução do livro AUSWANDERER aus den Viertälern. Pág. 30, no pé da folha)

POLÍTICA EMIGRATÓRIA NO PERÍODO PRUSSIANO

Em geral, os diversos Estados alemães tratavam seus emigrantes de modo muito reservado, mas no século 19 ela não estava mais proibida formalmente, e também na Prússia foi decretada uma lei, em 15 de setembro de 1818, que concedia a todo cidadão a liberdade de emigrar. Todavia, a permissão para emigrar continuava sendo da competência do governo provincial em Koblenz. Justamente a Prússia, que estava à procura de colonos para seus territórios orientais, regulamentou a emigração de modo mais restritivo e o Ministério do Interior procurava frustrar a emigração, por meio da proibição de publicação de folhetos que conclamavam para a emigração, bem como através da divulgação de relatórios negativos sobre a emigração e países de destino. E ainda se dificultava o trabalho dos recrutadores.

 

Além disso, as autoridades prussianas responsabilizavam os recrutadores pelas “ondas emigratórias” que sempre de novo surgiam e pelos relatórios, em geral positivos, sobre parentes de conterrâneos já emigrados.

 

Somente com a “Lei Imperial sobre a Emigração”, de 9 de junho de 1897, se estabeleceu uma regulamentação para todo o Reich. Nesta lei foram fixados padrões para os beliches, determinaram-se seções para homens e mulheres, fixou-se a quantidade e a instalação de lavatórios e banheiros, e também a alimentação foi regulamentada.

 

Já em 1817 o governo da província renana da Prússia publicou no Informativo Oficial do governo régio de Koblenz determinações que devem ser observadas no requerimento para emigrar. Também no Informativo Oficial nº 17, de 21 de maio de 1825, essas determinações são publicadas novamente com o seguinte teor:

 

  1. Ninguém poderá receber passaportes para a emigração a outros continentes se não comprovar suficientemente que possui o dinheiro necessário para a viagem:
    Pessoas acima de 14 anos: 150 táleres
    Crianças de 4-14 anos: 75 táleres
    Crianças abaixo de 4 anos: 15 táleres;
  2. Pessoas sujeitas ao serviço militar devem cumprir as exigências existentes antes de se lhes conceder os passaportes;
  3. Concessão dos passaportes está sujeita à nossa (do governo provincial em Koblenz) autorização;
  4. Se alguém arriscar-se a emigrar sem passaporte, ele será mandado de volta inexoravelmente pelas autoridades policiais dos atracadouros de ambas as margens do Reno;
  5. Recordam-se as determinações do ano de 1817.

 

Em anos subsequentes se eleva sempre de novo o valor necessário que todo candidato à emigração deveria possuir a fim de conseguir a permissão oficial, visto que, no decurso dos anos e com o número crescente de emigrantes, as custas haviam subido consideravelmente, inclusive as custas de transporte dos navios. Uma das razões para a exigência do numerário era, naturalmente, a garantia de que os emigrantes tinham condições de cobrir suas despesas de viagem até o embarque e desse modo se queria impedir um retorno sem recursos à Prússia, onde então se tornaria eventualmente um ônus financeiro para a comunidade de origem.

 

No Boletim Oficial nº 29 do governo régio de Koblenz, do ano de 1937, se chama a atenção, por exemplo, para um ofício recebido do departamento régio francês, segundo o qual teria sido expedido uma instrução referente àqueles indivíduos estrangeiros que, para viajar para a América passavam pela França, onde era exigido:

 

  1. Um passaporte expedido pelo governo da pátria e visado por uma embaixada francesa;
  2. Dinheiro de viagem para pessoas acima de 18 anos: 222 táleres, 4 grossos de prata e 2 centavos. Dinheiro de viagem para pessoas abaixo de 18 anos: 111 táleres, 4 grossos de prata e 2 centavos.
  3. A apresentação de um contrato realizado como o capitão do navio, por meio do qual o mesmo se compromete com o transporte.

 

Candidatos à emigração tinham que entrar com um requerimento em sua comunidade, a fim de conseguirem a permissão, o chamado “consenso”. No caso de chefes de família, cujos dependentes iriam permanecer no país, de devedores com dívidas particulares ou públicas ainda em aberto, ou também de pessoas que ainda não prestaram o serviço militar obrigatório, não se concedia o “consenso de emigração”. Essas determinações foram reforçadas ainda mais no decurso dos anos, mas experimentaram um evidente relaxamento depois de diminuir a grande onda de emigração em torno da metade do século.

 

Outra restrição referente a viagens e emigração, e que não deve ficar desconsiderada, é a “Portaria do Passaporte” de 12 de junho de 1817. Segundo ela, se concedia um passaporte somente a cidadãos corretos, de boa reputação.

 

Embora o governo prussiano jamais praticasse uma “política de liberdade” (por exemplo, de apenados), foi tolerado por parte do governo se as comunidades concediam apoio financeiro a cidadãos inconvenientes para desvencilhar-se dessas pessoas por meio da emigração.

 

Também comunidades locais se aproveitaram do propósito de emigrar de seus cidadãos, para livrarem-se dessa maneira de pessoas condenadas à prisão ou que oneravam o caixa da assistência aos pobres.

 

Depois de anexada à província prussiana do Reno (1815), somente poucas pessoas abandonaram a Região dos Quatro Vales. O êxodo em massa começou somente nos anos de 1843 a 1847. Nesse período cerca de 90% da população abandonou a Região dos Quatro Vales. Outra onda emigratória seguiu-se a partir de 1855, e também no último quarto do século 19 ainda muitos procuravam uma nova pátria no além-mar, alguns inclusive na Austrália.

 

Dever de assistência por parte do Estado

As autoridades prussianas consideravam protegê-los contra prejuízos como parte de seu dever perante os cidadãos emigrantes e chamavam a atenção especialmente para os riscos e desvantagens da emigração.

 

Mas também havia a necessidade de proteger o Estado contra abusos, pois justamente homens jovens procuravam fugir do importuno serviço militar obrigatório por meio da emigração.

 

Por esse motivo, já no ano de 1820, os conselhos provinciais e burgomestres (prefeitos) foram intimados, por meio de uma circular do governo, a “cuidarem para que essa gente não volte novamente em silêncio, fugindo desse modo do serviço militar”. Não se lhes devia a readmissão.

 

Baseado na experiência com as “emigrações impensadas”, em 1833 o Ministério do Interior determinou o seguinte:

“A fim de prevenir as desagradáveis consequências que surgem quando pessoas emigram levianamente e, depois de terem tentado em vão sua sorte em outros países, tendo, eventualmente, nesta tentativa, disparatado o patrimônio que possuíram anteriormente, retornam em condições deploráveis e de pobreza; se deve não somente chamar a atenção dos candidatos à emigração, que vêm requerer o consenso de emigração, para o fato de que pela efetiva emigração do Estado Prussiano perdem o direito de requerer a readmissão no mesmo, se essa for considerada duvidosa por qualquer razão, e que nominalmente aqueles que procuram voltar em estado de pobreza, serão rejeitados inexoravelmente na divisa, e que se, não obstante, se infiltrarem sorrateiramente, serão tratados como vagabundos estranhos; essa instrução de advertência deve constar expressamente no consenso de emigração.”

 

A partir desta data esse texto foi anexado ao requerimento do consenso de emigração, e posteriormente também ao documento de dispensa.

Os requerentes tinham que confirmar o conhecimento do mesmo com sua assinatura.

Especialmente o detalhe do tratamento como vagabundo também servia a que pessoas não emigrassem de sua pátria precipitada e impensadamente e sem planejamento.

 

No Boletim Oficial nº 40, de 21 de junho de 1836, se adverte contra as falsas promessas de armadores franceses, que ofereciam passagem e alimentação livres. Enquanto isso, as custas para a travessia de Le Havre até Nova Iorque haviam subido de 60-80 francos para 150-160. Reiteradas vezes também foram publicados relatórios negativos, e esses também eram publicados no Boletim Oficial da Província Renana, como, por exemplo no Boletim nº 75, do ano de 1837, no qual se advertia contra a emigração no exemplo de uma pessoa que voltou antes da emigração.

 

……

As autoridades prussianas também recebiam cartas de advertência dos países nos quais os emigrantes embarcavam para emigrar.

…..

Sobretudo no período entre 1840 e 1850, muitos moradores da região renana do Hunsrück tentaram reconstruir uma nova existência no Brasil. Falsas promessas, como também as circunstâncias e as dificuldades ou as condições de trabalho na nova terra, levaram muitos a frustração, e não poucos morreram em consequência de doenças próprias do clima.

 

Para esclarecimento dos cidadãos e a fim de se encarar com sobriedade tal empreendimento, o conselho distrital de Simmern publicou na edição de sexta-feira do Intelligenz-Blatt para o distrito de Simmern/Hunsrück, de 8 de maio de 1846, o seguinte relatório sobre a emigração de alemães para o Brasil:

 

“Com a primavera, aproxima-se o tempo em que reiniciam as emigrações aos continentes de além-mar… As descrições da riqueza do Brasil, da fertilidade de seu solo e do clima ameno atraíram muitos emigrantes. Em geral, porém, esses emigrantes foram ao encontro de um destino tanto mais triste quanto foram grandes e determinadas as expectativas, com as quais abandonaram sua pátria. Desconhecimento da agricultura brasileira, estranheza com a alimentação, um calor que, em muitas regiões do país, sobe a temperaturas insuportáveis e impossibilidade de se comunicar são algumas das dificuldades das quais os emigrantes não se lembravam, com as quais, porém tinham que lutar desde o primeiro momento em que pisavam na nova terra. Além da insegurança das condições políticas, da falta de instituições beneficentes e do ataque de estranhos ciumentos, ainda acrescia o fato de que os emigrantes não conseguiam ajuda imediata junto às autoridades, com as quais podiam comunicar-se somente com dificuldade e por intermediação de terceiros por causa das muitas formalidades que tinham que ser observadas, de modo que a ajuda, quando vinha efetivamente, muitas vezes chagava tarde para ser realmente efetiva.

… Em tempos recentes a Casa Delrue Cia. em Dünkirchen, assumiu a tarefa de encontrar colonos que deveriam ser recrutados entre pedreiros, carpinteiros, ferreiros, cortadores de pedras ou lavoureiros. A Casa Delrue recebe por cada emigrante levado ao Rio de Janeiro na idade de 5 a 15 anos a quantia de 122 Francos, na idade de 15 anos e mais, a quantia de 245 francos. Esse valor bem como as custas de sua manutenção desde o dia da chegada até seu emprego nos trabalhos devem ser restituídos ao governo na forma de reserva de um quarto, um quinto ou um sexto das terras por parte do governo. Até fins do ano passado já haviam chegado ao Rio de Janeiro 12 navios de Dünkirchen, com 2.097 emigrantes alemães. Esses fundaram a colônia Petrópolis, na Serra de Estrela, nas proximidades do Rio de Janeiro, onde moram cerca de 1.500 almas. Embora se manifestem variadas queixas desses emigrantes, ainda não é possível avaliar o destino desta colônia. Eles se queixam que, por ocasião embarque, tiveram que pagar de 40 a 60 francos por pessoa à Casa Delrue, de acordo com seu patrimônio, embora a mesma não teria direito a mais nenhum valor segundo o contrato, além das custas do transporte a serem pagas pelo governo brasileiro. Várias famílias desses emigrantes, cerca de 120 pessoas, desejavam ir a São Leopoldo, onde tinham parentes, ao invés de ir a Petrópolis. Nesse sentido dirigiram-se ao imperador com o pedido de serem transportados para lá, com o compromisso de, futuramente, pagarem as custas. Esse requerimento foi deferido, mas se lhes colocou à disposição um navio que, de acordo com a avaliação de especialistas, não era próprio para seu transporte. Aconteceu então que os emigrantes, que haviam chegado ao Rio de Janeiro em julho de 1845, em dezembro, ainda não haviam partido para São Leopoldo. Abrigados provisoriamente num depósito, tiveram que pagar, sem distinção de idade, uma diária de aproximadamente 8 grossos de prata por pessoa, sem que tivessem oportunidade para pagar sequer um tálere com seu trabalho. Já então cada família estava endividada com o governo em aproximadamente 400 até 600 táleres, sendo ainda acrescidas as custas da viagem a São Leopoldo. Tal montante de dívidas com o governo leva a crer que os emigrantes ficarão dependentes por quase toda a vida, sendo que até a amortização dos adiantamentos recebidos não serão senhores de suas ações e não poderão movimentar-se livremente, enquanto, por outro lado, têm que lutar com uma série de dificuldades a fim de conseguirem o cumprimento das promessas que lhes foram feitas. Nessa situação, o colono degrada muito facilmente a diarista, que vendeu seus serviços por longos anos. Seu destino pouco se diferencia do escravo, pois também sua liberdade pessoal está empenhada. Em breve constatará que o salário, que na Europa o cegava, é muito módico para as condições brasileiras. Ele deve sentir com pesar que na Europa lhe foi dito somente o que irá ganhar no Brasil, e não se lhe disse o que necessita. Muitas vezes o colono sequer pode prever quando poderá começar com a amortização das dívidas, visto que primeiro tem que desbravar as terras que lhe foram entregues. É distante o tempo em que será inteiramente livre e estará no pleno gozo das terras que lhe foram outorgadas, se é que esse tempo virá. Em parte alguma o colono tem garantia para o bem-estar pessoal. O governo procura aproveitar-se do colono em seu próprio benefício e reaver os adiantamentos feitos. O empresário em geral não se interessa pelos emigrados. Apenas procura lucrar o máximo possível com a transferência dos mesmos para o Brasil. Ao lado de todas essas circunstâncias, o colono se sente constantemente desapontado em suas expectativas referente ao país. Tudo lhe parece diferente do que havia imaginado e acha difícil separar-se de seus costumes na pátria. Se não sucumbe ao desânimo, ele se entrega facilmente a uma vida dissoluta em vista da degradação dos costumes no país, que em breve o levará à ruína. Até agora houve carência quase total de clérigos capazes, que tivessem condições de influenciar a moralidade dos emigrados. É bem verdade que o governo prometeu condições de funcionário imperial e de lhes pagar uma subsistência, no entanto o pagamento é feito com muita irregularidade e é tão insignificante que não basta para a subsistência do clérigo, razão pela qual os mesmos, não raro, procuram outras fontes renda…”

 

(Fonte: Tradução do livro AUSWANDERER aus den Viertälern. Pág. 39, último parágrafo)

 

 

Até o século XIX, uma emigração para além-mar estava ligada a muitos riscos que transformavam a viagem para mundo novo em aventura, na qual, não raro, estavam em perigo corpo e alma.

 

Visto que os emigrantes saíam preponderantemente das camadas inferiores da população, eles não estavam acostumados a viagens mais longas. No século XVIII uma viagem dessas durava muitas vezes vários meses, reduziu-se na segunda metade do século XIX a algumas semanas, graças às ferrovias e vapores de linha.

 

Os emigrantes de nossa região começavam sua viagem até os portos do Reno a pé ou em carroças. Também em Bacharach muitos deixaram geralmente a pátria em barcos cargueiros, para alcançarem o Reno, uma das vias de transporte mais importantes e baratas, a fim de chegarem aos portos de Roterdã, Amsterdã ou Antuérpia. Mas também escolheram os portos de Dünkirchen, Oostende e Le Havre como ponto de partida para a viagem marítima.

 

No Livro de Registros da comunidade evangélica de Bacharach (1577-1798) estão registrados vários casamentos de pares de Hesse, do Palatinado e da Turíngia, que “a caminho da Nova Inglaterra” ainda consumavam a união matrimonial em Bacharach antes de embarcarem para o porto e para a viagem marítima. Não se é possível constatar se os pares se conheceram primeiro na viagem para Bacharach, ou se aproveitavam a última oportunidade para iniciar a viagem como casados.

 

Por um lado, o traslado a partir desses portos era relativamente favorável, porque até meados do século XIX, nos navios que dali partia não estava incluída a alimentação no preço da passagem. Por outro, esses portos podiam ser facilmente alcançados através do Reno, visto que de Roterdã se podia navegar a Le Havre, sendo que Le Havre também podia ser alcançada a partir de Colônia por via férrea. Bremen estava ligada a Colônia por trem somente a partir de dezembro de 1847.

 

A navegação por vapores no Reno estabeleceu-se por volta de 1825, e de Bacharach os viajantes podiam tomar esses navios a partir de 1833, através da recém-instalada estação de barcas. Os passageiros eram levados para os navios e trazidos deles por meio de canoas.

 

Nos navios da “Sociedade Navegadora Prussiana-Renana”, fundada em 1827, existiam, por exemplo, quatro categorias de acomodação: pavilhão, camarote grande, camarote de frente, e alojamento dos marinheiros que era ocupado em sua maior parte pelos emigrantes.

 

O alojamento dos marinheiros encontrava-se na parte inferior do navio, onde também eram armazenadas as cargas. Em tempo bom, esses passageiros dispunham somente do convés anterior, onde também estavam acomodados animais, carroças ou cargas volumosas. O convés posterior estava reservado a passageiros que haviam comprado passagens para o pavilhão e os camarotes grandes. Também o refeitório não poderia ser usado pelos passageiros do alojamento dos marinheiros.

 

(Fonte: Tradução do livro AUSWANDERER aus den Viertälern. Pág. 46)

 

 

PRIMEIRA LEGISLAÇÃO PARA A PROTEÇÃO DOS EMIGRANTES

Um despacho da cidade de Bremen, de 1º de outubro de 1832, foi a primeira medida estatal para a proteção dos emigrantes na Alemanha, e contribuiu consideravelmente para tornar a cidade mais atrativa como porto de embarque. O dito despacho obrigava os transportadores a comprovarem que suas embarcações tinham condições de navegar em alto mar e a confeccionar listas de passageiros; além disso, tinham que levar mantimentos para o mínimo de 90 dias, embora uma travessia sem incidentes não durava mais que 60 a 70 dias. Especialmente a proibição de estocar o próprio alimento, costumeiro na época, que diminuiu sensivelmente a taxa de óbitos do convés intermediário e que fundamentou a boa fama dos navios bremenses. Em nenhum outro porto os passageiros de então dispunham de proteção efetiva. O Senado de Bremen, com a presença evidente da classe comercial, havia reconhecido que o transporte economicamente desejável no negócio da emigração poderia ser alcançado de maneira mais efetiva através de um tratamento das pessoas que partiam.

 

Também Hamburgo publicou um decreto em 1837 que fazia ainda outras exigências. Cada passageiro do convés intermediário deveria ter à disposição um espaço físico mínimo determinado, também as medidas dos beliches eram prescritas.

 

(Fonte: Tradução do livro AUSWANDERER aus den Viertälern. Pág. 48, parágrafo 3)

 

A TRAVESSIA

A travessia para o mundo novo era para a maioria dos emigrantes a primeira grande viagem aventureira. Especialmente no primeiro período da emigração, a viagem nos conveses intermediários dos barcos a vela com seu balanço constante, com sua alimentação de má qualidade e a condenação ao ócio era uma estafa física e psicológica. Além disso, a maioria dos passageiros sofria do enjoo do mar.

 

TRAVESSIA EM BARCOS A VELA

Até a metade do século XIX eram usados barcos a vela como meio de transporte. A HAPAG usava exclusivamente navios a vela até 1854. Esses navios serviam em primeiro lugar ao transporte de cargas, que a partir da Europa transportavam mercadorias diversas, entre outras, artigos de ferro, sal, vidro e têxteis para a América. Como carga de retorno levavam, por exemplo, algodão, cereais, tabaco e carne bovina.

 

Os navios de emigrantes eram mistos. O transporte de pessoas do velho para o novo mundo deveria ser o mais barato possível, por isso os armadores mandaram construir um convés intermediário entre o convés superior e compartimento de carga, no qual estavam “amontoados” os emigrantes. Para a viagem de volta eram desmontados novamente os beliches de dois andares, grosseiramente construídos, previstos para cinco pessoas e que quase sempre eram muito pequenos e curtos, a fim de conseguirem mais espaço para a carga. Cada pessoa adulta dispunha de um escasso espaço de meio metro, as crianças dispunham somente da metade. E isso que o convés intermediário era simultaneamente dormitório, refeitório e “sala de estar”. Os volumes maiores da bagagem para a viagem eram acomodados no compartimento de carga, sob o convés intermediário, no entanto amontoava-se, não obstante, um grande número de caixas e baús entre os beliches porque continha objetos necessários para o uso durante a viagem ou dos quais os viajantes de modo algum queriam separar-se. O apertado beliche era o único lugar de permanência durante a travessia. Nos inícios do século XIX não havia nem mesmo bancos e mesas no convés intermediário.

 

Os navios não tinham um plano de cruzeiro determinado, partiam somente quando a carga estava completa. Além disso, as condições do tempo determinavam a velocidade do barco. Os emigrantes nos convés intermediários instalados especialmente serviam aos proprietários dos navios como renda adicional.

 

(Fonte: Tradução do livro AUSWANDERER aus den Viertälern. Pág. 51)

 

Com o barco a vela a travessia do Atlântico durava, em regra, de cinco a sete semanas, mas podia estender-se por mais tempo em caso de tempo desfavorável.

 

No navio, os emigrantes tinham que providenciar sua própria alimentação. Somente a água para beber lhes era fornecida. Em barcos que partiam de portos ingleses, de Antvérpia, Le Havre ou Roterdã, se praticava o auto provimento dos passageiros até 1855. As reservas de água, todavia, não permitiam uma boa higiene ou a lavagem da roupa, para isso tinha que ser usada a água do mar. Se a viagem se prolongava em consequência do mau tempo, os mantimentos tinham que ser racionados. Em decorrência da alimentação insuficiente e da roupa suja e infestada de piolhos instalavam-se facilmente toda sorte de doenças. Na maioria dos navios daquele tempo a ocorrência de óbitos era a regra.

 

Visto que não se conhecem notícias de viagem dos emigrantes da Região dos Quatro Vales. Cito aqui uma descrição da travessia de Gottlieb Mittelberger, que foi para a América nos anos de 1750-1754 como organista e que registrou suas aventuras durante a travessia. Assim escreveu: “quando então os navios com as pessoas chegam a Holanda, ficam presas ali por 5 a 6 semanas. Como tudo é muito caro, as pobres pessoas têm que consumir quase tudo que tem. Tanto em Roterdã quanto em Amsterdã, as pessoas são metidas nos grandes navios transatlânticos de modo muito apertado, por assim dizer, como sardinhas. Uma pessoa dispõe mal e mal da largura de dois pés e seis pés de comprimento no catre, porque alguns navios levam quatrocentas, quinhentas até seiscentas almas, sem contar os inúmeros apetrechos, caixas, mantimentos, água, barris e outras coisas, o que também ocupa muito espaço.

 

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Durante a viagem marítima se instala nos navios uma miséria indizível, fedor, fumaça, pavor, vômitos, toda sorte de doenças do mar, febre, disenteria, acessos de calor, indigestão, inchaços, escarlatina, estomatites e semelhantes, provocados pela carne muito salgada, também pela horrível e péssima água, levando muitos a definhar e a morrer. A isso acresce a falta de alimentos, fome, sede, calor, umidade, medo miséria, tentações e lamentos, ao lado de outros inconvenientes, visto que os piolhos se alastram muitas vezes, especialmente entre os doentes, de tal modo que se pode afastá-los com a palma da mão.

 

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Crianças de um a sete anos raras vezes sobrevivem a uma viagem marítima, e às vezes pais têm que ver seus filhos morrerem miseravelmente por falta de alimentação, fome, sede e outras carências, e ser atirados ao mar. Presenciei esse espetáculo lamentável e triste ser executado com 32 duas crianças de nosso navio, que foram lançadas ao mar. Os pais se preocupam tanto mais porque seus filhos não recebem um lugar de descanso na terra, sendo devorados no mar por peixes vorazes.

 

Muitas vezes morre um pai durante a viagem, deixando mulher e crianças, ou morrem ambos os pais, deixando órfãs as crianças, ou também morre uma família inteira, de modo que muitas vezes vários defuntos estão deitados nos catres ao lado dos vivos, especialmente quando irrompem doenças contagiosas no navio.

 

(Fonte: Tradução do livro AUSWANDERER aus den Viertälern. Pág. 52)

 

TRAVESSIA COM O VAPOR

Como o primeiro vapor atravessou o Oceano Atlântico, em 1819, a “Savannah”, do porto americano do mesmo nome para Liverpool, nos anos subsequentes foram postos cada vez mais barcos a vapor a serviço (não na Alemanha). Para os emigrantes, o custo da passagem permaneceu inacessível por muitos anos.

 

A companhia de navegação Sloman tomou em serviço o primeiro navio a vapor alemão em 1850, com a “Helena Sloman”. Tinha a capacidade de transportar 310 passageiros, sendo 236 no convés intermediário. A companhia de Navegação HAPAG passou a usar vapores desde 1855 e o Lloyd da Alemanha Setentrional desde sua fundação, em 1857. A viagem num vapor também já era sensivelmente mais confortável para emigrantes. A maior vantagem da técnica moderna era a abreviação do tempo de percurso, e levou também a datas de viagem fixas. Nos anos 1850, a travessia de Hamburgo para Nova Iorque levava de 13 a 19 dias. Em comparação com os navios a vela, que precisava de 35 a 42 dias para o mesmo percurso, isso significava um expressivo ganho de tempo. Não se dependia mais do vento, e pela abreviação do percurso se economizavam mantimentos e água.

 

O convés intermediário agora, como antes, não podia concorrer com o luxo dos passageiros acomodados em camarotes, mas as condições de transporte eram mais humanas do que nos barcos a vela. Enquanto os passageiros de 1º e 2º classe estavam acomodados em camarotes de 2 a 4 passageiros e tinham à disposição salas de estar e refeitório, o convés intermediário servia de “sala de estar”, refeitório e dormitório ao mesmo tempo. Mas para a higiene estavam à disposição lavatórios e banheiros. Alimentação, talheres e louça e roupa de cama tinham que ser fornecidas pelo navio, em virtude de uma legislação progressista.

 

 

OS DESTINOS DOS EMIGRANTES.

América Latina (Brasil)

 

O Brasil também era um dos países onde igualmente muitos emigrantes da Região dos Quatro Vales procuraram uma nova pátria e melhores condições de vida. O número de emigrantes para a América Latina, porém, não atingiu nem de longe o contingente emigrado para a América do Norte. Apenas cerca de 5 a 10 % dos emigrantes alemães foram atraídos pela América Latina. Ainda no início do século XIX as colônias latino-americanas eram ainda pouco acessíveis para imigrantes fora dos países-mães, Espanha e Portugal, sendo que na segunda metade do século XIX emigraram anualmente 5 a 10 mil pessoas para o Brasil.

 

É bem verdade que por iniciativa do rei de Portugal, já em 1808, europeus podiam emigrar para o Brasil, mas a ressonância não foi muito grande, visto que o apelo se dirigiu exclusivamente a pessoas católico-romanas – religião oficial no Brasil da época. Somente a partir de 1818 a imigração foi promovida pelo Estado. Em 6 de maio de 1818 se concedeu, em uma portaria real, para imigrantes suíços, fundadores da colônia Nova Friburgo, a livre travessia e a viagem ao Brasil. Além disso se prometeu aos imigrados uma área de terra com um abrigo provisório. Cada família (de acordo com o número de membros) receberia ainda um boi de canga ou um cavalo de tração, bem como duas vacas leiteiras, quatro ovelhas, duas cabras, dois porcos e sementeira. Outro decreto, de 16 de março de 1820, previa que cada família receberia 75 hectares de terras, que, no entanto, retornaria para o estado em caso de retorno à pátria. Esses benefícios, porém, igualmente se destinavam somente a imigrantes católicos. A extensão das terras postas à disposição diminuiu gradativamente e em 1850 estava reduzida a 24 hectares. Além disso, a partir de 1855 a entrega de terras não era mais gratuita, tinham que ser pagos 300 mil réis.

 

(Fonte: Tradução do livro AUSWANDERER aus den Viertälern. Pág. 61)

 

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Depois que o Brasil se tonara independente de Portugal, em 7 de setembro de 1822, o então imperador Dom Pedro I, casado com Leopoldina, filha do imperador austríaco Francisco I, começou com o assentamento planejado de trabalhadores rurais no Rio Grande do Sul.

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Especialmente na Província do Rio Grande do Sul os alemães eram mais numerosos. O “Brockhaus” do ano de 1882 fornece os seguintes números: São Leopoldo com 25.870; Porto Alegre com 8.900, Nova Petrópolis com 3.350, Santa Cruz com 6.320 e São Lourenço com 6.280.

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O navio “Wilhelmine” com os primeiros emigrantes levantou âncora em Hamburgo em fevereiro de 1824. Em 18 de julho de 1824 os emigrantes alemães chegaram a Porto Alegre, e foram inclusive saudados pelo imperador Dom Pedro. De lá viajaram em barcas pelo Rio dos Sinos até o ancoradouro, que mais tarde se desenvolveu formando a cidade de São Leopoldo e que ainda hoje é considerado centro espiritual de língua alemã, aonde chegaram em 25 de julho de 1824. Receberam suas glebas nas terras imperiais da Feitoria Velha, que todavia consistia de pura mata virgem não cultivada.

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Duas famílias da Região dos Quatro Vales emigraram para o Brasil já em 1827. Os descendentes de Jacob Dienstmann, emigrados em 1827 de Medenscheid, bem como os de Johann Matrtin Bruxel, emigrados no mesmo ano de Oberdiebach, estão representados em muitas regiões do Brasil.

 

Depois da chegada ao Rio de Janeiro, a família Dienstmann viajou no veleiro de dois mastros “Conceição do Imperador” para Porto Alegre (registrado como nº 42 na lista dos passageiros), e chegou a São Leopoldo em 16 de dezembro de 1827. Segundo o registro de imóveis de São Leopoldo (código 319), Dienstmann recebeu do governo imperial o lote 39 à margem direita do travessão de Dois Irmãos (hoje a rua principal São Miguel) com 159.479 braças quadradas.

A casa construída pelo filho Johann Jacob, entre 1850-1860, ainda existe.

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Nas colônias do Rio Grande do Sul se preservou até hoje o “hunsrücksich rio-grandense”. Por meio de contatos linguísticos com outros dialetos alemães, com outras línguas de imigrantes e também do português, esse “hunsrückisch” se desenvolveu a uma nova e independente variante linguística, que é falada ainda hoje.

 

 

Fonte: Livro “AUSWANDERER aus den Viertälern”, de Walter Zahn
Apoio: Verein Für Die Geschichte Der Stadt Bacharach Und Der Viertäler E. V.
Tradução e resenha: Pastor Ilson Kayser – São Leopoldo – RS

 

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